O ano de 2015 deve fechar com uma retração econômica de 3,05% segundo pesquisa Focus, realizada semanalmente pelo Banco Central com as principais instituições financeiras. O resultado aponta, entre outros aspectos, a queda no consumo, um dos pilares do crescimento do PIB nos anos anteriores. Esse cenário deixa o supermercadista mais cauteloso com relação às vendas e, consequentemente, com as contratações de fim de ano. Para se ter uma ideia, a CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) prevê um recuo de 2,3% no número de vagas temporárias no País comparado ao ano passado.

A Asserttem (Associação Brasileira do Trabalho Temporário), por sua vez, revela que as contratações entre outubro e dezembro serão 20% menores no Brasil em relação ao mesmo trimestre de 2014. Já a Fecomercio-SP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo) projeta que as vagas serão metade do que foram no ano passado no Estado. Embora diferentes, os números confirmam a retração na abertura de postos. Isso, somado ao crescimento do número de pessoas desempregados, deverá elevar a oferta de pessoa.

“Menor demanda por trabalhadores e maior oferta de pessoas dá mais poder ao contratante. Como as empresas estão contratando mais tarde do que o normal, elas estão exigindo pessoal experiente e qualificado”, explica Francine Amadeu da Silva, da unidade em Alphaville da consultoria em RH Luandre, que atua em todo o País. Segundo ela, a indústria contrata os temporários em junho ou julho, enquanto o comércio o faz no fim de agosto e início de setembro. Mas, neste ano, a demanda começou agora.

Neste momento, a empresa de recolocação tem disponíveis 2.500 vagas, menos da metade das 6.000 oferecidas no mesmo período do ano passado. Há a possibilidade de aumento de oferta de emprego na última hora. Entretanto, ela reforça que quanto menor o tempo para o início do trabalho, maior o nível de experiência exigido pelas empresas. Para a consultoria, a contratação de temporários neste ano deve ser 50% inferior a do ano passado.

Apesar de a Luandre não ter dados específicos sobre o setor de supermercados, Francine destaca que é notável a queda no número de ofertas do segmento nos grandes centros para suprir as vendas de Natal e Ano Novo. O mesmo tem ocorrido com lojas situadas nos destinos de férias das famílias, onde normalmente os supermercados contratam gente para atender o movimento de verão.

Oficialmente, os números também indicam que o desemprego está em níveis não vistos desde setembro de 2009. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de desemprego ficou em 7,6% da população economicamente ativa em setembro deste ano. O desempenho é semelhante ao de agosto, mas bem maior que os 4,9% do mesmo mês de 2014.  No caso do comércio, o desemprego ficou em 18,7% no mês da pesquisa.

O alto nível de desemprego mudou o perfil dos candidatos a vagas temporárias, o que também deve beneficiar os supermercados. A pesquisa do Vagas.com mostra que as pessoas estão interessadas em uma relação de longo prazo.  Dos profissionais que estão em busca de ocupação neste momento, 76% estão desempregados, ante 55% no ano passado. “Em 2014, com o pleno emprego, tínhamos muitos jovens em busca de experiência profissional e muitas pessoas querendo apenas complementar a renda no fim do ano. Hoje, temos profissionais experientes desempregados em busca de oportunidades, o que nos leva a crer que temos melhor mão de obra disponível”, afirma Urbano. Entre as áreas de maior interesse dos candidatos aparecem o varejo e o comércio como as principais.

Mas se o benefício em termos de qualidade dos profissionais é quase certo, não se pode dizer que as empresas também ganham na barganha dos salários. Francine, da Luandre, explica que as categorias têm pisos que precisam ser respeitados mesmo quando o trabalho será por um período determinado. “O caixa do mercado ou os estoquistas têm pisos definidos e alguns deles até tiveram reajuste acima da inflação neste ano. Então, neste quesito não haverá economia para os contratantes”, diz. A redução dos custos deverá ocorrer realmente pelo menor volume de pessoal contratado.

Em relação à efetivação dos contratados neste fim de ano, Francine acredita que o número será mantido próximo ao nível histórico de 40%, isso porque, muitas empresas usarão o cenário atual para substituir pessoal com baixo desempenho ou desmotivado. “Esse talvez seja o maior ganho do empregador. Ao contratar um temporário com vontade e aptidões, as companhias poderão dispensar os funcionários que já não estão mais de acordo com os objetivos da empresa. Quando se tem pouca oferta de mão de obra, como em 2013 e 2014, as empresas ficam reféns dos empregados”, conclui a consultora.

Fonte: Supermercado Moderno